"Escrever é um ato solitário, solitário de um modo diferente de solidão. Escrevo com amor e atenção, ternura e dor e pesquisa, e quero de volta, como mínimo, uma atenção e um interesse."- Clarice Lispector
Olá a todos, sejam bem-vindos ao nosso blog Sopa
de letrinha e cia. Somos as professoras Mabel Bento e Regina Monteiro,
ambas de Língua Portuguesa, para o Ensino Médio e Fundamental II, na cidade de
São Paulo.
Construímos este espaço para atender à proposta de
sistematização do nosso curso de Pós Graduação, da Universidade Católica de
Brasília: Ensino e Aprendizagem da Língua Portuguesa para o Ensino Fundamental
II e Ensino Médio, nas disciplinas Mídias
na Educação Básica (Profa. Ana
Paula Costa e Silva) e A Produção Textual
no Espaço Escolar (Profas. Andrea Coutinho e Yara Fortuna).
Procuramos apresentar reflexões sobre a aquisição da
leitura e da escrita, no espaço escolar, bem como o uso e a contribuição da
tecnologia no processo ensino/aprendizagem, também no ambiente escolar, por
meio de artigos escritos, vídeos, animações e imagens.
Esperamos que confiram nossas sugestões de links e gostem de nossas postagens!
Leitura, palavra que faz parte de nossa existência. Sabemos que ela nos apresenta novos mundos, novas pessoas e nos faz “viajar” por meio de nossa imaginação, aguçando nossa curiosidade, provocando novas sensações, além de aumentar nossos conhecimentos e registrar fatos em nossa memória.
Mas, já nascemos gostando de ler? Ao que parece não; pois, assim como não nascemos com a definição da língua que iremos falar - vai depender do lugar e com quem seremos criados/educados - a leitura também deve ser aprendida; e já pode ser despertado em nós o gosto pelos livros ainda quando pequenos, em casa, com nossa família, e mais tarde, na escola.
Nos três links a seguir encontraremos abordagens envolvendo leitura.
No primeiro, há um trecho, publicado pela Revista Nova Escola, de uma das mais importantes obras de Delia Lerner, escritora argentina, Ler e escrever na escola: o real, o possível e o necessário. Nele, a autora afirma que leitura implica atribuir sentido/significado à escrita e que isso deve ser feito desde a primeira aula da pré-escola.
No segundo, A menina que odiava que odiava livros, temos Nina a protagonista da história que achava os livros chatos. Entretanto, um dia, uma pilha deles despenca sobre sua cabeça e os personagens saem dos livros causando a maior confusão e destruição dentro da casa dela. Para resolver tudo, a garota precisa ler as histórias e ao “chamar” (ler) os nomes dos personagens, eles encontravam o caminho de volta, ou melhor, o livro ao qual pertenciam. Foi assim que Nina descobriu o prazer de ler.
E no terceiro, intitulado Os fantásticos livros voadores do senhor Lessmorre, de Willian Joyce, é contada a história de um jovem solitário chamado Modesto Máximo, Morris Lessmore - no original em inglês -. Máximo está na varanda de sua casa escrevendo, quando vem um furacão e ele perde tudo. Tudo mesmo. Menos as suas memórias. Durante a ventania, uma menina voadora joga um livro para Modesto e esse objeto guia-o até uma biblioteca, onde o jovem se torna cuidador e dono dos livros. O tempo vai passando, e Modesto vai escrevendo o seu próprio livro. Quando termina, descobre que também tem a capacidade de voar e joga seu livro sobre uma menininha, ou seja, tudo vai começar novamente.
As histórias das animações são simples, no entanto o que chama a atenção nelas é a paixão pelos livros, da qual Delia Lerner fala e Nina e Máximo demonstram em suas histórias. Vamos conferir?
Como já sabemos, o trabalho de formação do aluno leitor começa bem cedo.
No vídeo a seguir, da disciplina Didática da Língua
Portuguesa e da Literatura, do Curso de PedagogiaUnesp/Unives, vemos um trabalho cooperativo onde
os alunos mais velhos ensinam os mais novos a ler com entonação e fluência. A
interação entre eles acontecede forma
natural e o resultado é a potencialização no desenvolvimento da capacidade
leitora
Parabéns às professoras responsáveis pelo projeto!
Na fala do
professor Marcuschi, destacam-se, entre outros aspectos, as distinções entre o
universo da fala e o da escrita. No entanto, em muitos processos de escrita, no
contexto escolar e fora dele, essa separação e particularização de cada
universo não se materializa, no processo de aprendizagem da escrita, de forma
adequada. Principalmente nos anos iniciais do Ensino Fundamental, é comum as
produções de textos se basearem na escuta de textos ou na produção escrita de
textos conhecidos de memória pelos alunos, como contos de fada, por exemplo.
Esse processo é chamado de
“reescrita”, na qual o aluno cria uma versão escrita para o texto que ouviu que,
sem o devido encaminhamento por parte do professor, virá a ser um mero
exercício de transcrição. Nos anos escolares posteriores, a aproximação entre a
fala e a escrita mantém-se mais próximas. O aluno vai escrevendo enquanto pensa,
sem que haja um distanciamento entre o texto e seu produtor, como menciona
Marcuschi. Nessas situações, ao receber as intervenções do professor, o aluno
limita-se a “passar a limpo”. Esse tipo de reescrita não o leva a refletir
sobre o texto que produziu.
A reescrita eficaz deve ser vista
como um processo de intervenção no texto, a partir de um projeto estabelecido
de produção textual. O aluno deverá ser levado a distanciar-se do texto que
escreveu, assumindo o papel do autor que manipula a linguagem para atingir seus
objetivos de escrita.
Como docentes devemos preparar
nossos alunos para assumirem-se como autores de seus textos, fazendo valer o
momento da reescrita, ainda que tarefa árdua, mas que produzirá um texto melhor
redigido.
Proposta de atividade para
a introdução da turma às aulas de literatura
Público alvo: 1ª série do Ensino Médio
Período: 3 ou 4 aulas
Objetivo(s): Compreender que os juízos de valor que constituem a literatura
são historicamente variáveis, mas têm certa relação com as ideologias
sociais. Esses juízos de valor estão ligados não somente ao gosto particular,
como também aos pressupostos pelos quais certos grupos sociais exercem e
mantêm o poder sobre o outro.
Entender o que é
literatura, muitas vezes, causa certa dificuldade para alunos e professores.
Os livros didáticos
geralmente definem como objetos literários aqueles em que se nota um uso
especial da linguagem – como, por exemplo, a presença de rimas nos poemas.
Mas será que em
todo texto em que se nota certa sofisticação na linguagem é literário?
Sugerimos a
seguinte atividade para levar os alunos a desenvolverem uma postura em relação
à definição de literatura.
O jornal The
Washington Post realizou uma experiência no campo da música que pode
nos ajudar a pensar sobre a definição de literatura como uso especial da
linguagem.
A prática de tocar
nas estações de metrô é comum entre artistas da Europa e dos Estados Unidos.
Muitos artistas fazem isso a fim de obter certa ajuda financeira e Joshua Bell,
um dos maiores violinistas do mundo, aceitou tocar em uma estação de metrô de
Washington sem se identificar.
A ideia do jornal
era verificar se as pessoas reconheceriam a extraordinária qualidade da
apresentação do violonista que se apresentava tocando um valioso Stradivarius do século XVIII. Vale
ressaltar que Joshua Bell havia tocado, dias antes, no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custavam algo em
torno de 1000 dólares.
A experiência
permite observar se a avaliação estética tem a ver apenas com a qualidade da
produção ou se outros elementos interferem na apreciação.
Como podemos
explicar o fato de milhares de pessoas terem passado sem sequer terem olhado
para um músico reconhecido como um dos melhores do mundo?
O lugar da
apresentação e a aparência do músico interferiram na reação dos passantes?
Será que há alguma
coisa errada com as pessoas que não prestaram atenção numa música de tão alta
qualidade?
A experiência
proposta pelo jornal coloca em xeque certas ideias arraigadas sobre qualidade
estética. Em geral, procura-se definir a qualidade de uma obra artística a
partir de suas características internas e que qualquer pessoa é capaz de
notá-las e valorizá-las. No entanto, a excelente execução feita por um grande
músico erudito não despertou interesse.
Alguns elementos
ajudam a entender o que aconteceu: o local não era adequado, o artista não estava
vestido a caráter, os transeuntes não esperavam ouvir uma música especial
naquele lugar etc. Na verdade, não há nada de errado no fato de ninguém ter
parado para ouvi-lo. Podemos concluir que a percepção da qualidade estética de
uma obra depende de vários fatores e não apenas das características intrínsecas
à obra.
Público alvo: 9º ano do Fundamental II
(dependendo da obra) ou Ensino Médio
Duração: 4 aulas ou mais
Objetivo(s): Incrementar a leitura de
obras clássicas da literatura brasileira proporcionando aos alunos a
manipulação livre (através dos games)
de partes dos textos ou associando-os a objetos pertinentes a eles.
Ler é muito legal.
Mas jogar também é. Que tal juntar essas duas “gostosuras” e conhecer um pouco
da boa literatura brasileira? No link a seguir você vai interagir com três
impressionantes obras da literatura brasileira, leitura obrigatória inclusive
para os maiores vestibulares do país.
A primeiraé O cortiço, de Aluísio Azevedo. Aliás,
você sabe o que é um cortiço? Cortiço é uma habitação coletiva destinada às
classes sociais menos favorecidas das grandes cidades brasileiras. Nele moram a
sensual Rita Baiana, o português bonitão Jerônimo, o avarento João Romão e mais
de uma dezena de outros personagens. Saiba, porém, que o personagem principal é
o próprio cortiço, que adquire vida própria e arrasta tudo e todos com seu
ímpeto de degradação.
Você sabe o que é
uma crônica de costumes? É o relato ou comentário de hábitos e comportamentos de
pessoas numa sociedade sob certas circunstâncias. Memórias de um sargento de
milícias, de Manuel Antônio de Almeida é um bom exemplo disso. Você vai
conhecer Leonardo, o primeiro malandro da literatura nacional. Prepare-se para
conhecer a sociedade brasileira que ecoa até os dias de hoje.
Quem não se lembra
do(a) primeiro(a) namorado(a)? Bento Santiago jamais esqueceu a sua –
Capitolina ou, como a conhecemos, Capitu. O maior enigma da literatura
brasileira está no romance de Machado de Assis: Dom Casmurro.Dessa obra, a única certeza que temos é ade que estamos diante de um dos maiores romances da
literatura mundial.
No Brasil, o
português apresenta alto grau de diversidade e suas diferenças se devem,
principalmente, a duas condições: a grande extensão territorial e as barreiras
sociais que separam ricos e pobres, como também escolarizados e não
escolarizados.
Essa diversidade
linguística desenvolveu a ideia equivocada de o “certo” e o “errado” em termos
de fala e deescrita.
No vídeo abaixo,
vinculado pela Escola de Formação de Professores Paulo Renato Costa Souza, o
professor Marcos Bagno fala sobre o assunto. Segundo ele, preconceito linguístico
significa uma pessoa ser discriminada por causa da sua maneira de falar. Para
ele, o papel da escola é reconhecer, debater e denunciar esse tipo de
preconceito. A ciência da linguagem ensina que toda língua humana é múltipla e
variável. O modelo idealizado de língua baseado numa tradição literária, numa
determinada região, numa determinada classe social é chamado de norma padrão.
Ao professor cabe ensinar essa norma padrão respeitando a variedade linguística
de seus alunos.
Veja no link abaixo, um vídeo com a apresentação
da música “Zaluzejo” interpretada pelo grupo “O teatro mágico”. Nela, Fernando
Anitelli, compositor da mesma, também se refere ao preconceito linguístico e
enfatiza no final da letra que “errado é aquele que fala correto e não vive o
que diz”. Assim, cabe à escola demonstrar aos alunos a multiplicidade de
realizações (formas de uso) da língua portuguesa e o respeito aos diferentes
falares, afinal não são eles que definem quem uma pessoa é.
Fonte:
BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é,
como se faz. São Paulo: Edições Loyola, 2003.